7.4.13

Devaneio meu



Na última noite eu sonhei com você. Foi aquele tipo de sonho que a gente sabe que é sonho e por isso age da forma que mais deseja, porque nos sonhos somos mais plenos e íntegros com nossas vontades. Eu subi aquela ladeira da saudade, saudade de você. Andei muito até a sua rua, até a sua casa de portão amarelo, até o seu quarto. No caminho eu cantava aquela música, o dedilhado dela era minha trilha, minha sonoplastia pra te ver. Meu coração disparava, batia tão forte que quase me acordou e meu maior medo era despertar desse sonho de te ver depois de meses. Passei pelo seu portão, entrei na sua casa, passei pelos seus irmãos, era como se eu fosse invisível. Subi as escadas, abri a porta do seu cantinho, vi rastros meus, senti seu cheiro e te vi de costas na janela, como se tivesse me assistido chegar. Você virou e os cabelos estavam maiores, mais escuros. Sorriu pra mim. Fui até você, lhe deitei na cama como sempre, mãos na cintura, como hábito e você disse com os olhos repousados nos meus “não existe ninguém como você”. 

Mas, foi só um sonho.  


Raquel Pimentel

30.3.13

Amante de ninguém



Mesmo quando seu corpo não está mais sobre o meu, a sensação permanece durante toda semana. Sei exatamente o peso proporcional de cada parte sua dividida pelas partes magras do meu corpo esquálido. 

Seu cheiro permanece nas minhas narinas pequenas e a cada vez que respiro me lembro de você, porque seu cheiro invade meu cérebro e me confunde os segundos, embaralha os minutos e é assim que levo minhas horas. 

E os dias vão passando e a cada semana quando te encontro clandestinamente levo comigo a sensação de seus dedos invadindo minha nuca e permanecendo em meus cabelos por longas horas a arrepiar minha espinha. Levo minha mão ao pescoço na esperança de encontrar a sua, em vão, ela já se foi. 

É difícil te ter em partes, na metade que me cabe, que não me cabe. 

Na metade que me encaixo e não caibo. 

Sou amante do sem compromisso, do tempo, da falta de tempo, do interesse mínimo, do que não me ama, do que me deseja.

Sou amante do espaço, da falta espaço, do enorme espaço quando você não está. 

Sou amante do beijo rápido, do sabor incorporado, do desejo velado, da saudade escancarada. 

Sou amante da alma sem dono, do coração partido e trancado que jamais será meu. 

Raquel Pimentel

25.7.12

Avesso



Abriu os olhos, coçou a testa suada e olhou para o relógio. Ainda podia dormir mais 17 minutos até o despertador anunciar o fim da cama e o início do dia. O peso em sua mente o deixaria facilmente ali por um dia inteiro. "Agosto", ele pensou, já estava em agosto e fazia quase um ano que não dormia direito. Pensou na constância dos seus sentimentos e na sua insistência. O coração estava tumultuado, mesmo com o passar dos meses.

Os poucos segundos de beijo que tinha, aliado à ausência de todo o resto não eram suficientes para que ele se sentisse bem novamente, para que esquecesse, para que quisesse esquecer. Rolou na cama e tentou dormir. Sentiu frio e calor, raiva e paz. E acima de tudo, o peso.  

O primeiro pensamento que lhe vem à mente é sempre ela. E antes de dormir contabilizava o nada que achava que tinha, esperava achar significado no antes. Avesso. Ele estava ao avesso. 

Tentar lembrar quem era em setembro passado era o que mais o afligia; e concluiu que não estava miserável como agora. Antes do sorriso e da voz que o tomaram de súbito e o arrebataram direto para o inferno, de quem está sozinho no palco em um triste monólogo apaixonado.

A esperança não está nas músicas ou nas poesias que parecem girar em torno de seu corpo como num filme. A esperança certamente não está nos filmes.

Ele pensou que assim como o outro amor se esvaiu com o tempo e com o cansaço, esse independente da longevidade, que era curta pra ele, passaria. E o céu seria mais azul e a poeta de sorriso encantador ganharia seu coração. E seus cabelos ao vento seriam mais belos e a voz mais suave.

Ele iniciaria tudo de vez, assumiria todo o risco de uma nova paixão. Todo o pavor de uma nova rejeição. Abraçaria de coração limpo o futuro não planejado. E para quem não conseguia suportar mais do que uma semana de futuro e vivia de sexta em sexta, habitando os bares em más companhias para achar dor proporcional, o otimismo seria uma dádiva.
Ele deve enfim se permitir magoar novamente.

E levantou para mais uma quarta-feira. 

Raquel Pimentel

20.3.12

Filosofia barata e Feliz aniversário seu lindo!



Se Freud disse que o pai é o primeiro namorado da filha, certamente ele acertou no meu caso. Lembro claramente a primeira vez que vi meu lindo pai de branco, fardado com o famoso pirulito – uniforme de marinha - entrando no meu quarto e me acordando, como há anos, ele adora fazer. Aliás, meu pai tem um hábito curioso de sair cedo pra trabalhar ou jogar bola, se aproximar da cama e ficar dizendo: “filha, quer conversar?”, tipo 6 horas da manhã eu não quero falar com ninguém, eu quero dormir. Aí eu digo “não pai, de boa, vai pro trabalho!” e ele rebate ironicamente, “tem certeza? Depois não vai dizer que aqui em casa não teve diálogo”. Voltando ao dia que ele entrou no meu quarto, eu tinha uns 3 anos... Tomei um baita susto e disse “meu Deus, como tá lindo, como você é lindo”. Amor a milésima vista, já amava aquele homem, de fato, lindo “lifetimes before” como diz a música. Mas naquele dia a definição de paixão se encaixou perfeitamente. Meu coração disparou pelo militar vestido de branco mais lindo que esse mundo já viu.


E foi assim que minha vida foi seguindo, seu Heraldo foi meu Tom Cruise de Top Gun na versão melhorada. Sempre me apoiando, me direcionando com suas frases sábias: “de tudo eu sei tudo”, “não vai dizer que a cigana te enganou”, “Raquel, não mete essa!”. E várias outras que viraram jargões entre os meus amigos. Meu pai dormia dentro do carro, na porta das festas, porque a gente morava longe, nunca me deixou ir num “cala boca e beija logo” por causa do nome da festa e dizia (diz...) “tá pensando que eu sou pai de novela? Isso lá é nome de festa!”


Pai é pai, cada um tem o seu e o de cada um melhor que todos os outros. O meu tinha uma blusa, gola canoa laranja, tem uma unha preta no dedão do pé, vários “tiques nervosos”, reclama de tudo, me apóia em tudo, assiste friends e patricinhas de beverly hills, me levou em todos os shows de Sandy e Junior, me olhou sério quando eu mereci, me deu uns justos tapas, leu todas as porcarias que eu escrevia e tem o maior coração do mundo.


Mas se tem uma história que eu adoro contar do meu pai é do dia que eu sabiamente disse a ele que estava namorando... Passei uma semana pra levar a ave de rapina lá em casa, sob as ligeiras cobranças do meu digníssimo patriarca. “cadê, eu não vou conhecer defunto não?”, os dias foram passando e eu não dormia. A ave cheia de pose, enchia o peito em dizer que estava tudo certo, que era só eu chamar que ele ia se apresentar pro seu Heraldo e eu disse “não chama de tio, por favor”. Meu pai é tio pra todo mundo, mas pra namorado ele é “oi, já to indo, boa noite”.

Se não me falha a memória eu comecei a namorar numa sexta-feira a noite, isso há uns 7 anos, numa festa do colégio militar em Salvador, cheguei em casa naturalmente no sábado e dei a bomba! Exatamente uma semana depois, tava rolando um evento de marinha, vários amigos do meu pai reunidos, e eu tive a brilhante idéia: aqui, na frente de todos meu pai não vai fazer escândalo, não vai fazer uma piada de mau gosto e meu recente namoro tá salvo.
Passei duas horas chamando o sujeito que queria sair voando pela janela e se afogar nos mares de Inema. Assustado depois de uma semana vendo a namorada sofrer o coitado ficou com medo. “Pronto fulano, vamos?”ele respondeu com força “vamos!”. Na metade do caminho eu disse “não vamos, não vamos, não vamos, pelo amor de Deus não vamos!”.

Antes do evento militaresco eu vi nos olhos do meu pai a satisfação de que ia fazer maldade e a ave ia virar piriquito, beija-flor, tava temendo a piada. Pra ninguém achar que seu Heraldo é um homem violento, brabo e etc. Não é tanto, não ia bater em ninguém (e não vai hein gente?!) mas ia (e vai!) fazer uma MEGA piada, me deixar super sem graça, tentar acabar com minha social ou contar algo embaraçoso na frente do rapaz. 
Andando pelos corredores do hotel de transito de Inema, onde estava meu fabuloso painho, o Nem, agora quem mudou de ideia foi a ave. Menina, o homem enlouqueceu, só faltou dizer que não queria namorar mesmo, que se precipitou, queria marcar pra ver meu pai na próxima visitação do papa no Brasil. Aí eu comecei a fazer o que? Chorar? Rir? Ou fazer o certo que era aceitar que ninguém ali queria namorar mesmo e dar a meia volta? Não! Eu resolvi puxar pelas asas, em tom de brincadeira, repetindo “vamos, vamos, está tudo bem, eu até já perdi o medo” o menino dizia “mas eu não, eu to com medo, vamos deixar pra depois...” De repente, não mais que de repente o riso realmente se fez pranto. Vinicius (o de Moraes) começou a declamar nos meus ouvidos o fim da minha história de amor, o soneto da separação. Meu pai chegou, com as mãos na cintura e disse: “Que %¨&* é essa Raquel?”.

Que vergonha! É isso, eu poderia escrever um livro de histórias engraçadas do meu pai herói, histórias lindas que mostram como ele tem um coração que mete inveja nos mesquinhos e avarentos. Um exemplo de caráter, um exemplo de homem e de pai. O cara que ouve minhas arranhadas no violão e diz que tá lindo, que dá pitaco na minha calça jeans e me ama incondicionalmente que eu sei! Te amo, Pai. Feliz aniversário!

Raquel Pimentel