22.5.12

Pessoal e Particular



Me despindo dos personagens e pudores de quem tenta escrever sobre os outros e para os outros, vou tentar dizer algo pessoal sobre o que eu faço de errado, mesmo que não tenha planos, muito pelo contrário, de mudar absolutamente nada. 

Houve o tempo em que eu era muda. Se não gostava, não dizia absolutamente nada, deixava as coisas terminarem por si só e com um sorriso de lado saí ferindo e destilando meu veneno em uns poucos que realmente gostaram de mim, fiz pouco caso, admito. 

Se eu gostava não falava, e mais uma vez me reclusava na vergonha de talvez não ser aceita e continuava sem dizer nada. Nostalgicamente voltaria no tempo e diria que senti sim saudades quando fui indagada por um namorado romântico que tive uma vez. E apagaria o "claro que não, te vi ontem". Se talvez hipocritamente eu pudesse dar um conselho a mim mesma, para as próximas vezes que alguém ousasse em se interessar por mim, diria que  é  "é possível" e não descartar qualquer possibilidade como se todas as pessoas fossem de plástico retornável. A maioria de fato é, mas eu posso pelo menos dar o crédito, dar o direito a dúvida, me voltar até a constituição e creditar que todos somos inocentes até que se prove o contrário. 

Sendo assim, recorro ao cinema e digo "eu sou Gigi"! Pateticamente faço as coisas mais erradas, mais estranhas, me comporto da maneira mais esquisita na frente de quem eu deveria ser mais contida e escolher as palavras e os comportamentos certos. Mas aí vive minha grande vitória, pois não faço a mínima questão de mudar isso em mim e me tornar alguém diferente, sexy, objetiva, divertida e inteligente. Então vou seguindo fazendo tudo errado e na hora errada. Acho que entendi que vou viver do erro e do equívoco e da bad luck (prometi não dizer mais isso, porque segundo a lei da energia atrai, mas como está em inglês, espero que não venha... sai bad luck). Basta tirar proveito de tudo o que eu acho que deu errado e ver o lado positivo, clichês aparte, comigo tem funcionado.  

Vivo com meu calcanhar de Aquiles, aprendi a lidar com ele. Mas não quero ser diferente, porque vou dizer em voz alta hoje, "Eu sou Gigi"! Sei que existem personagens mais memoráveis na história do cinema, de filmes de diretores aclamados, como os de Woody Allen, que fazem de tudo em busca de um amor, de um reconhecimento, até o próprio,  que justifica sua vida nas obras e enaltece toda forma esquisita de se gostar de álguem. Sei das músicas mais bem escritas, pelos poetas mais memóraveis, pelos músicos mais entendidos de mulher e nossas confusões. Mas como sou saco vazio e nada me preenche, me aproprio de toda Holywood, toda Europa, todo efervescente cinema argentino, me aproprio da arte e me componho personagem de minha história real de furos e mais furos de amor e me divirto com eles. 

Dos mais desinterassentes rapazes as mais lindas paixões que meu coração sem abrigo já se meteu, claro que não vou citar nenhuma, até porque como minhas amigas dizem dava um stand up comedy e não é essa minha intenção aqui. O que eu mais me apropriei a cada obra, a cada minuto de filme e quadro riscado foi o "dizer". Brinquei, como dizem os Los Hermanos de sinceridade e não omiti meus pecados, meus pensamentos e reclusões. Eu disse e comecei a dizer e essa explosão de sentimentos não passa. Abraço o juiz que disser que fiz falta numa partida de futebol, choro absurdamente e me permito sonhos derradeiramente românticos. 

"Eu sou Gigi!" parei de gritar e agora digo de onde tirei essa personagem insuportável do cinema americano. Gigi é um papel secundário no filme "Ele não está tão a fim de você", ela simplesmente te irrita de tanta coisa errada e precipitação, tanto imediatismo. Vergonha alheia. Ela não é linda como as jennifer's (Aniston e Connely) que estão no filme e tomam decisões sensatas de pessoas maduras que estão num relacionamento de muito tempo. É uma mulher  normal que se surpreende com cada descoberta, que tenta entender, dar significado à luz das estrelas e debate com fervor o sexo dos anjos. São mulheres, com certeza. Cometo todos os deslizes de Gigi, mas não é por mal, é porque nós duas não sabemos ser diferentes. 

Gigi acredita e permite que todas as escolhas e consequências delas batam diretamente em sua cara. É uma forma destemida e esquisita de se meter nas maiores roubadas, uma seguida da outra, por vontade própria, sem necessariamente aproveitar. Gigi põe o pé na jaca e pula! Daí, ela dança e fica amiga da jaca. 

É muito cinema? Muita história? Como diz o filme: muitos casos de Exceção? 

Não sei, não tenho ainda mais respostas sobre o que eu acho dessa pessoalidade e nem se me despi realmente dos personagens que circundam minha mente. Pois para muitos eu sou a boba que coloca um moletom e fica em frente a tv assistindo Casablanca e no final faço sempre o mesmo comentário: "Porque Rick não entrou no avião?". Mas prefiro ser assim hoje e não morrer no "se" mais. Não mais.  

Raquel Pimentel

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